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O poder dos mitos – parte 2

Continuando nossa passagem sobre os mitos, aproveite para ler a primeira parte de O poder dos mitos.

Resgatando nosso debate e voltando à questão das nuances: mesmo quando os mitos não são apresentados especificamente de forma negativa, geralmente são apresentados de forma bem simplificada. Por exemplo, os gênios (no original, jinn): hoje em dia, pensamos neles como espíritos presos em garrafas ou lâmpadas que concedem três desejos a quem os liberta, mas originalmente, havia relativamente poucas histórias sobre gênios aprisionados (o que faz sentido; somente feiticeiros muito poderosos, como o rei Salomão, eram capazes de tal coisa), e uma vez libertos, eles eram tão capazes de matar quem os libertou quanto de prestar-lhes um serviço em troca (e embora fossem muito poderosos, eles não eram capazes de manipular a realidade a seu bel-prazer como as versões modernas). Da mesma forma, os orixás das religiões iorubá e afro-brasileiras costumam ser descritos como se fossem deuses, mas embora muitos deles tenham “nascido” como espíritos divinos, muitos (talvez a maioria?) eram humanos que ascenderam à uma espécie de divindade; ou seja, eles são mais parecidos com divindades tribais e locais do que deuses ao estilo greco-romano (vale lembrar, também, que a religião iorubá tem uma divindade suprema, criadora e governante do Céu e da Terra, acima dos orixás).

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Outra razão para a diluição dos mitos é a demonização de religiões mais antigas pelas novas, algo comum com o cristianismo (mas não exclusivo a ele). Por exemplo, a imagem popular do Diabo – chifres, cascos, pernas peludas, todo o pacote – foi criada na Idade Média inspirada diretamente no deus Pã especificamente e nos sátiros em geral. Aconteceu a mesma coisa com Freya, deusa nórdica da fertilidade (tanto das mulheres quanto dos campos) e uma das divindades mais populares entre os vikings: histórias escritas em tempos cristãos frequentemente a mostravam de forma negativa. É só comparar, por exemplo, a versão original da lenda dos reis Hedin e Hogni (Hedin captura Hild, filha de Hogni, e os dois reis e seus guerreiros lutam até a morte, mas toda noite, Hild usa sua magia para trazê-los de volta à vida, e assim a batalha continua eternamente) com outra do séc. XIV, na qual a batalha e o encanto que faz os mortos reviverem é resultado de manipulações por parte de Freya (que não é uma deusa, mas apenas uma feiticeira poderosa), que foi forçada a fazer isso por Odin como punição por ser sexualmente promíscua.

Como dito acima, esse tipo de coisa não era feita só pelo cristianismo. Na mitologia egípcia, por exemplo, vemos que em ciclos mitológicos mais antigos o deus Set era uma divindade importante e respeitada e que Apep (ou Apófis, para os gregos) era a serpente inimiga dos deuses. A representação de Set como um vilão e covarde é, comparativamente, mais recente, e possivelmente teve causas políticas (parece que ele era um deus popular com os hicsos, povo que invadiu e conquistou o Egito por certo tempo). Hoje em dia, Set (e suas várias cópias, como os deuses-serpente tão populares na fantasia heroica) é provavelmente a 1ª escolha para “Satanás egípcio” na cultura popular, até mais que Anúbis, o “deus das múmias e chacais”. Em contraste, embora o deus Ares frequentemente fosse representado como uma divindade maldosa e destrutiva, é seu tio, Hades, quem costuma ser o “deus grego do Mal” em obras modernas, só porque ele era o governante do submundo.

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Finalmente, existe um fator adicional que não deve ser subestimado: às vezes, as fontes dos mitos das quais dispomos são imprecisas, e até descobrirmos mais, as versões antigas ficaram tão famosas que não é fácil para o público esquecê-las. Por exemplo, muitos sabem da concepção de além-vida dos vikings, certo? Aqueles que morriam em batalha iam para o Valhalla (o Paraíso), e os que morriam de doença ou velhice iam para Hel (o Inferno). Isso mostra os vikings sob certa ótica: afinal, uma cultura na qual apenas os guerreiros vão para o Céu deve ser bem belicosa, até selvagem, não é verdade? Só que a nossa principal fonte sobre os critérios para se parar em Hel, a Edda em Prosa do Snorri Sturluson, não é consistente sobre o assunto: sabemos que o deus Balder vai parar em Hel após morrer (e fontes mais antigas confirmam isso), mas ele morreu quando foi atravessado por uma flecha, não de doença ou velhice! Além disso, outras fontes mencionam outros “Paraísos” além de Valhalla: um para os que morreram afogados, um para fazendeiros… Mas caramba, as pessoas só se lembram de Valhalla! (Se bem que, para sermos justos, Valhalla é muito heavy metal.)

Algumas adaptações são compreensíveis. Quer dizer, ninguém espera que a Disney mostre um marido (Zeus) traindo a esposa (Hera) e esta tentando matar a consequência desse caso (Hércules) de todas as maneiras possíveis. Tendo dito isso, por que, então, chamar o filme de “Hércules”? Vejamos os pontos essenciais do filme: uma pessoa com superpoderes se sente deslocada no mundo por causa deles, começa a atuar como uma heroína porque acha que isso vai ajudá-la a encontrar seu lugar, e então aprende que ser uma heroína é muito mais do que achava que ia ser. Por acaso alguma coisa disso exige que essa pessoa seja Hércules, ou que a história se passe em uma Grécia mítica? Podiam muito bem ter ambientado o filme em tempos modernos e feito uma história tradicional sobre um super-herói! A única diferença é que aí não haveria o “reconhecimento de marca”, digamos, da mitologia grega, especialmente de Hércules e seus doze trabalhos. Pensando bem, eu boto a mão de alguém no fogo (não a minha, claro) de que “reconhecimento de marca” explica a maioria das decisões quanto a se adaptar ou reimaginar mitos antigos.

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É claro que não se pode esperar que o público moderno (e vamos lembrar que todo artista já fez, e ainda faz, parte do público) se identifique com todo mito sem mudar nada; a cultura ocidental mudou, afinal de contas. E é claro que algumas lendas foram adaptadas tantas vezes que qualquer artista gostaria de dar seu toque pessoal a uma nova adaptação (é só ver as lendas sobre o rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda; acho que as adaptações que se enquadrem na versão clássica do ciclo arturiano devem estar em minoria, hoje em dia). Mas estamos deixando de aproveitar tramas, personagens, temas e discussões envolventes por causa de preguiça criativa (“Esta é uma história sobre o Homem confrontando os deuses… …e vencendo? Ah, bota o Hades como o vilão e pronto”), porque não queremos pensar sobre os significados mais profundos dos mitos.

Enfim, este texto já está meio longo, então vou encerrar com apenas mais alguns pensamentos. Histórias sempre foram importantes para a humanidade; acho que nunca existiu uma cultura que não contasse histórias. Elas continuam a ser muito importantes para nós mesmo no séc. XXI, mas parece que não damos mais o devido valor a elas, que agora pensamos nelas só como entretenimento. Mas será que mesmo entretenimento deve ser apenas “só”? Será que não deveríamos nos esforçar mais em aprendermos com as histórias do nosso passado, em vez de as picotarmos todas e descartarmos tudo o que não se encaixa em nossa visão de mundo?

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Kung Fury – um curta retrô e muito non-sense

Uma salada cultural em homenagem aos anos 80. Com tiros, explosões, tiroteios, artes marciais, viagens no tempo, tecnologia e artes marciais em manobras mirabolantes e impossíveis, tudo reunido em Kung Fury, um curta que vai divertir muito quem tem saudades das séries oitentistas. Tanto a temática quanto o próprio visual lembra um velho VHS (a criançada nem deve saber o que é isso).

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A Guerra Civil entre Marvel e Fox, do cinema aos quadrinhos

As brigas no cinema chegam aos quadrinhos (veladamente)

Todos sabem que existe, atualmente, uma leve rixa entra a Marvel Studios e a Fox por causa dos direitos dos personagens. Isso começou  quando a Marvel passava por dificuldades financeiras, porém agora o cenário é outro. Passada a crise e a aquisição pela Disney, o dinheiro voltou a entrar e com os recentes sucessos dos filmes da casa das ideias, a briga pela volta dos direitos está ecoando pelo ar. Apesar de nenhum lado admitir oficialmente, a disputa existe e agora começa a chegar nos quadrinhos. Entretanto, para entender melhor o que acontece hoje, vamos voltar um pouco no tempo para explicar a situação.

268 HQs da MARVEL, de graça, na internet!

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Uma verdadeira katana feita de meteorito

Há muito tempo, a ficção nos brinda com espadas feitas de material vindo dos céus. Repletas de mistérios, poderes e habilidades, estas seriam lâminas superiores às feitas na Terra. A despeito da inventividade de seus criadores, sempre existiram espadas e ferramentas feitas com essas pedras que caíram dos céus, uma em particular, está em exposição no Japão.

A Espada do Céu (tentetsutou 天鉄刀) encontra-se em exposição em uma feira de ciências na Tokyo Skytree, no Japão. Ela é uma katana completa, feita na melhor arte japonesa das espadas, de um meteorito de 450 milhões de anos!

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Para comparação, ao lado da espada, é apresentado um fragmetno de meteorito de ferro, encontrado na Namíbia. Segundo a reportagem da Rocket News 24, antes do desenvolvimento da metalurgia, ferramentas eram criadas com rochas vindas do espaço por tribos antigas, sendo encontradas no início dos anos 1800.
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Seguindo essa linha e a pedido dos fãs, o programa Man at Arms – especializado na produção de espadas e lâminas para produções cinematográficas, trouxe à vida a espada de Sokka, personagem de Avatar: The Last Air Bender (versão animada), que também é feita de um meteorito. Para a confecção da peça, eles utilizaram um metal de mesma origem, de um meteorito encontrado na Argentina. Confira o magnífico processo de criação no vídeo:

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O poder dos mitos, parte I

Sou fascinado por mitologia desde garoto (“Caramba, Hércules acabou de estrangular até a morte um leão com a pele invulnerável! Maneiro!”, “Caramba, Odin e seus irmãos construíram o mundo a partir do cadáver de um gigante! Maneiro!”… Essas coisas que toda criança gosta). Hoje em dia, além de ler essas histórias só por serem divertidas, gosto de aprender sobre seus temas, pensar no que elas significam. Afinal, para o mundo moderno, a guerra entre os deuses e os titãs é só uma lenda, mas para os gregos antigos, ela era realidade.
Um problema comum quando histórias mitológicas são reinterpretadas ou reimaginadas nos dias de hoje, especialmente pela cultura popular, é que os criadores e o público costumam se concentrar apenas na superfície delas, sem prestar atenção no que realmente significam. É parecido com o que aconteceu com as obras do Tolkien e do Robert E. Howard: cada vez que elas eram imitadas, os originais se diluíam, até que as pessoas só se lembravam de O Senhor dos Anéis e Conan como uma guerra entre o Bem e o Mal com humanos, elfos e anões e um bárbaro semi-inteligente de tanguinha de couro, respectivamente.

Por exemplo, Zeus costuma ser lembrado apenas como o cafajeste que se transformava em animais para seduzir as mulheres – isso quando ele não é um FDP completo, como no God of War 2 (o terceiro jogo ofuscou a situação quando disse que ele tinha sido infectado pelos males que saíram da Caixa de Pandora) –, mas para os gregos antigos, ele também era o deus que derrotou os titãs e trouxe a ordem ao universo. Basta ver as formas nas quais ele era adorado: deus dos juramentos, da hospitalidade, das transações comerciais… (Pois é. Os mercadores rezavam para Hermes para serem abençoados com lábia e esperteza, mas selavam os negócios em nome de Zeus para que ele atirasse um relâmpago em quem faltasse com a palavra.) Basicamente, o deus da lei e da civilização.

Em parte, isso é um resultado natural da civilização ocidental mudando com o tempo. Como eu disse antes, para nós, essas histórias são apenas entretenimento (e as mais loucas costumam ser as mais divertidas!), mas para os antigos, elas eram fatos concretos. O ateísmo já existia naquela época, mas a maioria dos gregos antigos sabia que terremotos eram causados por Poseidon, assim como a maioria dos vikings sabia que relâmpagos eram disparados por Thor.

Para sermos justos, não é como se os antigos achassem que seus deuses eram o último biscoito do pacote – não é à toa que o livro “A República”, de Platão, fala sobre como, em uma sociedade ideal, as histórias sobre os deuses teriam que ser censuradas para não darem um mau exemplo aos cidadãos. Mas eles viam nuances nessas histórias que estão perdidas para o público moderno. Por exemplo, dois conceitos importantes na cultura grega eram areté (“excelência”, em uma tradução livre) e hýbris (“orgulho excessivo”): era importante que a pessoa buscasse a excelência em tudo o que fazia e, portanto, era apropriado que ela se orgulhasse de suas habilidades e conquistas (Aristóteles fala sobre isso no Ética a Nicômaco, para quem se interessar), mas era igualmente importante a pessoa não se deixar cegar pelo orgulho. Então, quando leitores modernos aprendem sobre a lenda de Aracne e Atena (existem versões diferentes, mas na mais comum, Aracne era uma tecelã que se gabava de ser melhor tecelã que a deusa Atena e que foi transformada em uma aranha – a primeira de todas – como punição), eles veem apenas um exemplo de crueldade por parte de uma deusa mesquinha e invejosa, mas a maioria dos gregos antigos provavelmente veria uma lição de moral sobre não insultar os superseres responsáveis por manterem o mundo funcionando (afinal de contas, Aracne podia só ter se gabado de suas habilidades sem colocar a Atena no meio).

Outro exemplo, razoavelmente recente, desse tipo de coisa foi na caracterização de Aquiles no filme Troia (2004, salvo engano). Percebi muitas vezes que, quando as pessoas leem Ilíada, elas veem o Aquiles como um valentão que vai chorar na saia da mamãe para que ela sacaneie seu próprio lado; e embora o filme não o tenha mostrado especificamente como um chorão, ele mostrou um Aquiles bem arrogante e babaca (pelo menos até o momento em que ele é magicamente redimido pela chance de transar com a Briseida). Mas essas pessoas deixaram de considerar algumas coisas que, para os gregos, seriam conhecimento comum:

  1. A ideia de que “homem não chora” é mais romana (o estoicismo era uma grande virtude para os romanos) que grega. Não é como se os guerreiros gregos pudessem chorar o quanto quisessem, mas não era inapropriado que demonstrassem suas emoções, dependendo da situação. O que leva a:
  2. A honra era a maior de todas as virtudes para a nobreza guerreira e ela não era uma noção pessoal; não, ela estava intimamente ligada à opinião pública. A honra do Aquiles sofreu um golpe muito forte e muito injusto do Agamêmnon; ele foi envergonhado na frente de todos, o que diminuiu seu valor. Vale lembrar também que, embora os outros heróis presentes concordassem que o Agamêmnon estava sendo escroto, eles não defenderam o Aquiles.
  3. Apesar disso, ele foi perfeitamente cortês com os dois enviados do Agamêmnon que foram levar Briseida, como esperado de alguém de sua posição.

Portanto, ele não era um valentão, mas sim um herói verdadeiramente nobre que lutou com bravura durante toda a guerra e foi recompensado com a vergonha pública. Bem diferente do que o filme do Brad Pitt mostrou, não é? (Tendo dito isso, lembrem-se do que eu falei sobre nuances: a raiva de Aquiles sobre a maneira como foi tratado vai muito além da conta quando ele se recusa a fazer as pazes com o Agamêmnon, o que não apenas prejudica ainda mais seus conterrâneos, mas também leva diretamente à morte de seu primo, melhor amigo e possivelmente amante, Pátroclo.)

Continua…