As engraçadas comparações entre o nosso mundo e um mundo de monstros está lá. Assim como estão também as referências bem-humoradas ao modelo norte-americano de ingresso no ensino superior, tão batidas nos bilhares de filmes de lá que povoam nossos cinemas e tv’s. A dupla que fez sucesso na primeira edição também é a mesma. Inclusive mais nova e, aparentemente, com mais gás. Então, resta a pergunta: Por que, ao fim do filme, você percebe um hiato entre a sensação de sair do cinema após ver Universidade Monstros e aquela que você sentiu em 2001, quando viu Monstros SA?

Que o parágrafo anterior não leve você a achar que não vale a pena ver a nova aventura (ou antiga, já que a história atual remete a tempo anterior ao longa de estréia) de Mike Wazowski e James P. Sulley. Vale sim. Nem que seja em homenagem ao primeiro filme, um clássico da animação, com destaque na prateleira lá de casa. Você ri, se diverte, entende algumas relações e, aposto, não sai arrependido do cinema. Porém, se foi muito legal conhecer a história pretérita do redondinho verde e do peludo azul, é fato que ela não vai te “maravilhar” tanto quanto a primeira obra. E eu arrisco dizer que, para quem assistiu aos dois, na hora em que alguém falar a palavra Monstros o filme que virá à mente será o primeiro. Sempre.

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O que leva a uma reflexão sobre as continuações. Toda sequência é um desafio. Traz em si uma baita oportunidade, mas também pode ser apenas uma forma de surfar no sucesso que uma grife anterior já alcançou. Esse, me parece, foi o caminho trilhado por Universidade Monstros. Está tudo lá, certinho, bonitinho, explicadinho. Mas não tem o turning point, aquele momento de fazer cair o seu queixo ou brilhar os seus olhos. A obra fica “legalzinha”, mas deixa um gostinho amargo no fim de quem sabia que Mike e Sulley podiam “assustar” muito mais.

Minhas referências em continuações são de alto nível. Citação eterna em minhas conversas, Toy Story melhorou-se a cada edição. E minha devoção quase sacra a De volta para o futuro, que inventou um método de filmar bastante seguido mas, a meu ver, nunca alcançado. São dois exemplos de trilogias que deram certo porque tinham história para contar. Cada parte tornou-se única e independente, contribuindo para melhorar todo o conjunto. Mas nenhuma delas é dispensável. Você pode assistir um só, sem problemas de encantar-se com qualquer deles. E assistir a todos para discutir com os amigos depois se a trama já estava toda pronta ou se a genialidade surgiu aos poucos.

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Dar seguimento a um filme bom é aspirar fazer um muito melhor. E é exatamente essa ânsia que parece faltar em Universidade Monstros. Dá a impressão de que o objetivo foi seguir a receita pronta, manter o feijão-com-arroz e atuar na segurança de um sucesso do passado. É pouco para as ferramentas disponíveis. Mike e Sulley mereciam mais.

Por Raphael Santos.  Publicitário, sócio da Ilumminatti Comunicação e Design, professor e palestrante. Pai de 5 filhos, é louco por animação, redes sociais e quadrinhos.