Pouco mais de trinta anos se passaram desde que o escritor de best-sellers Stephen King lançou um livro de não-ficção onde procurava desmembrar o gênero de horror através de suas maiores influências. Dança Macabra, lançado em 1981, apresenta o cenário, até então, de literatura, tv e cinema voltado para este gênero pouco amado pela grande crítica, de acordo com o próprio autor. Neste livro, de maneira bastante intimista e bem humorada, Stephen King reserva capítulos onde o comportamento humano é destrinchado com a finalidade de apontar o porque deste gênero literário ser tão sedutor. Além disso, formula regras interessantes que aparentemente permeiam toda a produção do gênero.

Para King, o horror é necessário ao homem visto que ele, ao contrário do que muitos poderiam imaginar, serve como fator moralizante. Para isso, usa como base variados filmes e livros. Como exemplo, nos primeiros capítulos ele resenha o filme I Was a Teenage Frankenstein (1957). No filme, a história sobre o doutor Victor Frankenstein é recriada para o contexto histórico da época em que o filme foi lançado.

“I Was a Teenage Frankenstein” (1957)

Desta vez, o doutor usa corpos de adolescentes atletas na sua criação científica. Muito embora pareça óbvio, o que mexe com o público (majoritariamente adolescente) é o aspecto físico adquirido pela criatura. Para os jovens de qualquer época, o que poderia ser mais assustador do que uma espinha fora de controle, tomando forma por todo o seu rosto e o deformando? Atualmente, o controle destas “deformidades” pode ser resolvido mais facilmente, contudo na década de 50, o aparecimento de uma única espinha era estado de alerta para qualquer adolescente. Quando o Frankenstein adolescente é criado pelo doutor, seu rosto aparenta tal deformidade, fazendo parecer com que uma irrecuperável mutação espinhenta surgiu em sua face. Portanto, mesmo que em alguns momentos o público se sinta solidário a tristeza apresentada pelo monstro, esta criatura apresenta não só todo o terror juvenil como também serve de modelo definitivo ao agente moral que há em cada adolescente. O que é feio, grotesco e ruim deve ser eliminado. O mesmo pode ser aplicado a qualquer ficção de horror, sendo ela de origem vampiresca (Drácula e sua sexualidade exacerbada numa época em que só pensar sobre sexo era tabu), lobisomens (o que são lobisomens se não o reflexo da testosterona descontrolada e brutalizada?), etc.

Outro ponto importante defendido nesta obra é quanto ao fator emocional contido dentro de cada um de nós e que, através das obras de horror, podemos descarregar estas emoções sem que necessariamente façamos algo de ruim. Não que King defenda que todos gostaríamos de, algum dia, canibalizar, vampirizar ou assustar alguém. Porém, há um pouco de violência dentro de nós que a sociedade exige que guardemos pelo bem estar geral da nação. Com filmes sobre psicopatas, assassinos em série, fantasmas se divertindo, zumbis, o espectador tem a oportunidade de colocar essa descarga para fora sem que se sinta culpado. E como horror e comédia andam lado a lado (King chega a dizer que há uma fina linha que separa um do outro), fica muito mais fácil digerir estas situações. Assim, aqui o autor aponta outra forma de ação deste agente moralizador. Ele diz que o horror pode ser tão conservador “quanto um Republicano de Illinois vestindo um terno de três peças“, assim como essa monstruosidade contida nos livros nos fascina justamente porque apela para este Republicano contido dentro de nós (ou você acha normal uma carinha cheia de espinhas cheias de pus e aponto de explodirem? Hein?).

A leitura de Dança Macabra vale tanto por todo o aspecto sociopsicológico quanto também pelos variados livros os quais ele refere como primordiais a qualquer fã do gênero. A forma como ele descreve as narrativas dos livros, assim como apontar os principais pontos de tensão dos livros, os motivos que leva o leitor ao pânico total e os subtextos encontrados nas entrelinhas das histórias, acaba por hipnotizar e atrair qualquer leitor, mesmo que um leitor mediano, a procurar os livros indicados nos seus sebos favoritos. Já deixo de antemão que pelo menos seis dos livros eu consegui encontrar ao preço derretedor de apenas um real cada no Estante Virtual. O livro Dança Macabra pode ser encontrado facilmente via Editora Objetiva, aproveitando que acabaram de lançar uma ótima versão em pocket book a R$24,90. Fica a dica de suas próximas compras.