Bem-vindo mais uma vez, leitor! Vamos continuar com a retrospectiva da série “Mad Max”, começando com o último filme da trilogia original para enfim chegarmos a Mad Max: Estrada da fúria.

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Mad Max: Além da Cúpula do Trovão, de 1985, é o mais fraco dos filmes estrelando o ex-policial louco de raiva, mas também é o mais famoso (especialmente aqui no Brasil, de tanto passar na Sessão da Tarde). Ele abre com Max (que perdeu seu V8 Interceptor no filme anterior, lembre-se) tendo seus camelos e suprimentos roubados por Jedediah (um piloto de girocóptero assim como o Gyro Captain do segundo filme – e interpretado pelo mesmo ator!). Largado no meio do nada, ele vaga sem rumo até encontrar Bartertown (“Cidade das trocas”, em uma tradução livre), uma cidade no meio do deserto onde as pessoas podem se reunir e comerciar livremente, desde que respeitem as leis locais – ou seja, um oásis de civilização no meio da selvageria do mundo.

Bartertown foi fundada por Aunty Entity (“Titia Entidade”), mas quem realmente a controla atualmente é outra pessoa – ou melhor, duas outras pessoas: Master é um anão, mas tem o conhecimento necessário para manter a refinaria de metano (extraído das fezes de porcos) sob a cidade funcionando; Blaster é um brutamontes acéfalo, mas é incrivelmente forte, invencível em uma luta. Juntos, eles são MasterBlaster, e são eles quem mandam em Bartertown. Assim como no último filme, Max é forçado pelas circunstâncias a se envolver no conflito entre Entity e MasterBlaster; como resultado disso, Blaster (que não era o brutamontes sanguinário que parecia ser, mas sim um deficiente intelectual com a mentalidade de uma criança) é morto, Master se torna um escravo em tudo exceto no nome, e Max é mandado sem água ou comida para morrer no deserto.

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Max Rockatansky até mais ou menos a metade do filme, agora fazendo cosplay de cantor de banda de hair metal; Tina Turner como Aunty Entity (“WE DON’T NEED ANOTHER HEEEEEEEEEERO!”); e MasterBlaster (“Quem mandar em Bartertown?” “MasterBlaster manda em Bartertown!”).

Para a incrível sorte de Max, ele é salvo por Savannah Nix, a líder de um grupo de crianças que sobreviveram à queda de um Boeing 747. Essas crianças cresceram como uma espécie de tribo e até mesmo desenvolveram uma mitologia na qual o capitão Walker (o piloto do avião) um dia retornaria e os levaria até o paraíso Tomorrow-Morrow Land (“Terra do Amanhã-Manhã”). O clímax do filme é quando Max lidera as crianças e liberta Master de Bartertown (o conhecimento dele será útil para ajudá-las a reconstruírem a sociedade); ele se deixa ficar para trás para segurar as forças de Entity, enquanto Jedediah leva os outros consigo e escapam. No final, ele é capturado, mas Aunty Entity poupa a vida dele; e mais uma vez Max salvou outras pessoas, apenas para ele próprio voltar a andar sem rumo pelo deserto.

É neste filme que Max começa a deixar de ser um personagem para se tornar algo maior (ou menor, dependendo do ponto de vista): um arquétipo, uma espécie de modelo (ou protótipo) de personagem. Simplificando enormemente a discussão, é como as mulheres de boa parte dos filmes do 007, que podem ser divididas entre femme fatales e mocinhas a serem salvas.

E por que digo que Max começa a se tornar um arquétipo no Além da Cúpula do Trovão? Primeiro, porque ele parece não sofrer mais com as sequelas de ferimentos anteriores (ele já não manca mais da perna detonada no primeiro filme, por exemplo); segundo, porque suas habilidades físicas já estão bem mais próximas das de um herói de ação clássico dos anos 80 (é só ver, por exemplo, a cena em que a Aunty Entity o põe à prova para saber se ele é capaz de enfrentar Blaster); terceiro, e mais importante, porque ele já não tem mais um arco de personagem próprio – quer dizer, o filme já não explora mais sua personalidade ou suas motivações, a função de Max na trama gira apenas ao redor da tribo de crianças, ele só está ali para cumprir o papel de herói. Em outras palavras, o filme não mostra mais Max Rockatansky, o homem, mas apenas Mad Max, o guerreiro da estrada, o homem que virou uma lenda. Não é à toa que quando ele entra na Cúpula do Trovão (o ringue onde todas as disputas legais e comerciais de Bartertown são resolvidas por meio de duelos até a morte), o apresentador o anuncia como “o homem sem nome” (referência aos personagens clássicos de faroeste interpretados por Clint Eastwood)!

Possivelmente, isso se deve ao fato do filme não ter sido planejado originalmente como um filme estrelando Mad Max: George Miller concebeu a trama de um homem que se envolve na disputa de poder entre duas facções em uma cidade no meio do deserto e depois teve a ideia de colocar Max nesse papel. Mas talvez seja possível explicar isso como uma consequência dos eventos do segundo filme.
Vamos voltar à cena final de Mad Max 2, na qual o protagonista titular descobre que o caminhão que dirigia na verdade estava cheio de areia e o combustível estava escondido nos outros veículos da frota. Alguns veem isso como confirmação de que o discurso de Papagallo era só um monte de bobagens e que o povo da refinaria só queria usar Max como boi de piranha, mas isso não é verdade pelas seguintes razões:

  1. Papagallo estava perfeitamente disposto a ele próprio dirigir o caminhão. Inclusive, ele até mesmo recusa a primeira oferta de Max de ser o motorista; Max tem que deixar claro que ele está fazendo isso não para conseguir algo em troca, mas sim porque é o certo, antes de Papagallo aceitar.
  2. Membros da comunidade (inclusive Papagallo) lutaram e morreram defendendo o caminhão.
  3. No final das contas, que diferença faz se o caminhão continha gasolina ou não? Max sabia que seria a posição de maior risco e voluntariamente assumiu esse risco. Ora, ele até mesmo ri quando descobre o truque!
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Por outro lado, é muito interesssante que tanto o Gyro Captain quanto o Feral Kid (“Garoto selvagem”), as duas pessoas de quem Max é mais próximo ao longo da história, continuam em frente com o povo da refinaria, mas ele mesmo se deixa ficar para trás. Max pode ter superado o apego à raiva e ao sofrimento e começado a recuperar a humanidade, mas ele ainda não conseguiu preencher seu vazio, pelo menos não o bastante para que possa viver com outras pessoas. Isso explica por que ele volta a se preocupar apenas com a própria sobrevivência no Além da Cúpula do Trovão, mas ainda assim poupa a vida de Blaster ao descobrir que ele é basicamente uma criança e depois se sacrifica para dar às crianças perdidas a chance de construírem uma vida.

O que nos traz, finalmente, ao Estrada da fúria, lançado recentemente nos cinemas. Quem não assistiu ao filme ainda, não se preocupe: não darei spoilers. Resumindo a trama do filme: Max Rockatansky (agora interpretado por Tom Hardy, o Bane de O cavaleiro das trevas ressurge) novamente é forçado pelas circunstâncias a se envolver nos conflitos de outras pessoas, desta vez entre Immortan Joe, o líder de um culto guerreiro que o cultua como a um deus, e Imperatriz Furiosa, o braço direito de Joe que tenta escapar ao seu domínio junto com as “esposas” (concubinas e éguas parideiras seriam termos mais adequados) de Joe.

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Tom Hardy como o “novo” Max Rockatansky; Charlize Theron como Imperatriz Furiosa; e Hugh Keays-Byrne (Toecutter!) como Immortan Joe. Testemunhem!

O cenário mudou um pouco desde o último filme. A sociedade continua em ruínas, mas parece que aos poucos está surgindo uma nova ordem (Joe montou toda uma infraestrutura que lhe permite sustentar seu exército particular, por exemplo); pena que essa nova ordem nada mais é que feudos isolados governados a mão de ferro por déspotas. Ah, quanto mais as coisas mudam…

Por sua vez, neste filme Max completa sua transformação de personagem em arquétipo: ele quase não dá sinais de dor ou fadiga, suas habilidades combativas são excepcionais (com destaque para a cena em que ele enfrenta o Fazendeiro de Balas), e ele novamente não tem um arco de personagem próprio. Em Além da Cúpula do Trovão, Max se envolvia nos problemas dos outros e não crescia ou mudava em nada ao longo da história, mas pelo menos o filme acompanhava ele e seus feitos – a história ainda girava em torno do que Max fazia. Em Estrada da Fúria, a verdadeira protagonista é a Furiosa. O filme é a história dela, Max podia facilmente ser apagado da trama que ainda teríamos um filme completo.

Mas isso é ruim? Não, de maneira alguma! O filme ainda é muito bom, com algumas das melhores cenas de ação de toda a série (pessoalmente, ainda prefiro a perseguição final de Mad Max 2, mas a de Estrada da Fúria também é de primeira linha) e também as bizarrices típicas (uma guitarra lança-chamas! Melhor, uma guitarra lança-chamas DE VERDADE, nada de computação gráfica!). Mas talvez ele não seja um filme de Mad Max tão bom assim. Quer dizer, todos os elementos clássicos da série – o mundo devastado pela ganância e estupidez humanas, gangues criminosas saqueando o que restou da civilização, pessoas tentando encontrar alguma redenção no meio desse caos – estão ali; só faltou o próprio Max.

George Miller disse em entrevista que isso foi intencional, que o Max é como se fosse o protagonista errante dos filmes de faroeste e de samurai. Só que Max antigamente era um personagem, não um arquétipo; e em muitos desses filmes, a história gira em torno do protagonista errante, mesmo quando ele se envolve nos problemas dos outros. Basta ver o que acontece com o personagem de Toshiro Mifune em Yojimbo e Sanjuro, por exemplo. Pergunto-me se, assim como aconteceu com o Além da Cúpula do Trovão, na verdade o Miller não concebeu o filme apenas com a Furiosa e as “esposas” do Joe e depois teve a ideia de botar o Max também?

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