Olá novamente, caros leitores! Desta vez, trago uma resenha sobre dois jogos de plataforma para PC, Oniken e Odallus: The Dark Call. Os dois foram criados pela JoyMasher, uma empresa brasileira recente – Oniken foi o primeiro jogo lançado profissionalmente por ela, em 2012.

Oniken é um jogo de plataforma bem no estilo daqueles de Nintendinho. Já vi muitas comparações com a série Ninja Gaiden, mas eu discordo: Ninja Gaiden era um jogo frenético que exigia velocidade e reflexos, com inimigos sendo recriados constantemente (e sempre nos piores locais possíveis, onde o menor contato com um deles te jogaria em um buraco sem fundo!); Oniken é um jogo que recompensa o avanço cuidadoso pelas fases, às vezes exigindo até mesmo que o jogador decore o posicionamento das ameaças (o que fica muito mais fácil graças aos continues infinitos, exceto no modo Hardcore). Nesse ponto, ele é muito mais parecido com jogos como Vice: Project Doom (inclusive, a granada de mão é exatamente igual à deste jogo!). Esteticamente, dá para ver uma influência grande da série Contra, também, especialmente nos chefes.

Sobre a jogabilidade em si, não há muito que falar. Se você já jogou pelo menos um Ninja Gaiden ou Castlevania de Nintendinho, mesmo com as diferenças de estilo, você sabe o que esperar do Oniken. A sacada do jogo é modernizar esses clássicos (ele é bem difícil, mas nunca a ser injusto ou frustrante como os originais), não reinventar a roda. Os gráficos também são bonitos – digamos que estão a meio caminho entre os gráficos de 8 bits e os de 16 bits –, mas o jogo é visualmente bem simples; o que mais chama a atenção são os chefes mesmo.

Oniken

A história de Oniken, por outro lado, deve muito à série japonesa Hokuto no Ken (traduzida no Ocidente como Fist of the North Star; salvo engano, ela ainda não veio para o Brasil, pelo menos oficialmente), que foi muito inspirada na série Mad Max, por sua vez. Oniken se passa em um futuro pós-apocalíptico no qual uma “grande guerra” deixou o mundo arruinado; agora, uma organização militar chamada Oniken (“espada demoníaca”, traduzido livremente) tenta conquistar o que restou. Uma resistência se formou para enfrentar a Oniken, mas eles estão perdendo; sua última esperança é Zaku, um espadachim que pertencia a um clã oculto de guerreiros (ninjas, aparentemente) e agora é uma lenda viva entre mercenários.
Visualmente, Zaku lembra muito uma mistura do Kenshiro, de Hokuto no Ken, com o Guts, do Berserk. Isso vai além do visual: ele não recebe muita caracterização – afinal, é um jogo de ação, não tem muito espaço para explorar a fundo os personagens –, mas, pelo que é mostrado, ele combina o estoicismo do Kenshiro com leves traços da sanguinolência do Guts (pelo menos até o final do jogo).

Eu diria que a maior influência de Ninja Gaiden em Oniken é a maneira como a história é contada por meio de cutscenes entre as fases. O enredo é bem simples; geralmente, essas cenas nada mais são que os aliados de Zaku – general Zhukov, Rico e Jenny – dizendo a ele qual a próxima base da Oniken a ser atacada, ou então os líderes da organização – Geist, Grimm, Hackan e Doozor – conversando sobre o misterioso guerreiro que segue destruindo as bases deles. No meio do jogo, descobrimos que Hackan e Zaku (cujo nome real é Kage) foram treinados juntos pelo pai deste último, mas Hackan matou o mestre e depois derrotou Kage, dando-o como morto. Aqui temos um desenvolvimento mais substancial: Hackan matou o pai de Zaku (como ele insiste em ser chamado, dizendo que “Kage morreu há dez anos”) porque ele insistia que o supertreinamento deles só deveria ser usado para protegerem a vila onde viviam, enquanto Hackan queria poder, e Zaku passou dez anos buscando vingança; mas como Hackan bem diz, nesses dez anos, Zaku matou quem estivesse em seu caminho, tudo em um esforço para ficar mais forte e poder derrotar o rival – ou seja, ele abandonou os ideais do pai para seguir os de Hackan!

Kenshiro, é você?

Kenshiro, é você?

Acho que os criadores perderam uma oportunidade de ouro aqui de deixarem a coisa toda um pouco mais interessante: primeiro, ninguém menciona o egoísmo absurdo de superguerreiros protegerem apenas uma única vila quando o mundo todo está arruinado; segundo, Hackan matou o mestre apenas para usar suas habilidades para conquistar poder, mas ele poderia ter tido intenções mais moralmente ambíguas (talvez ele acreditasse que o único jeito de restaurar ordem ao mundo era por meio de uma ditadura militar?).

Seja como for, depois desse confronto, Zaku continua a ajudar a resistência. Primeiro, ele mata o líder da Oniken, Doozor, em um duelo, e depois ele destrói o computador principal que estava prestes a liberar um exército de ciborgues assassinos sobre a Terra, antes de seguir sozinho pela estrada afora para “cumprir uma velha promessa”, tendo abandonado sua espada. Se você zerar o modo Hardcore (coisa que ainda não consegui fazer – só uma vida sem nenhum continue é difícil pacas!), verá uma cena extra, mostrando que Hackan aparentemente continua vivo (e dando margem para uma continuação, é claro!).

É, para ser bem sincero, não é a história mais original do mundo, mas temos que dar um desconto: é um jogo de ação inspirado diretamente nos jogos de plataforma de Nintendinho, não dá para exigir demais. Além do mais, como se conta uma história é tão ou mais importante quanto qual história se conta, e as cutscenes do jogo têm alguns bons momentos. É uma história que, com um pouco mais de foco no desenrolar da trama e desenvolvimento dos personagens, ficaria redondinha. É a diferença, por exemplo, entre um Comando para Matar – divertido, mas no qual a história é só desculpa para ver montes de tiros e explosões – e um Exterminador do Futuro, que além de ótimas cenas de ação tem uma história e atuações muito boas.

Zaku posando de Guts.

Zaku posando de Guts.

O que me traz a Odallus: The Dark Call. Odallus foi lançado recentemente, em julho de 2015. Ele é um jogo de plataforma como Oniken, mas com um foco adicional em exploração: é preciso encontrar fases secretas (sem matar todos os chefes, é impossível entrar na fase final), relíquias que dão habilidades extras (coisas como pulo duplo, planar durante o salto, etc.), espadas e armaduras melhores (esses são opcionais, mas muito úteis) e pedras rúnicas que contam mais da história do jogo. É quase um “Metroidvania”, mas com fases diferentes, em vez do jogo inteiro se passar em um único ambiente; aqui, a influência principal (como admitido na própria página do jogo) parece ser a do jogo Demon’s Crest, de Super Nintendo, mas há muito dos jogos clássicos da série Castlevania também (tanto na estética quanto na jogabilidade; inclusive, a abertura lembra muito a de Rondo of Blood).

Leia também:   Esquadrão Suicida – crítica (sem spoilers)

Quanto à história, se Oniken foi inspirado em Hokuto no Ken e Berserk, este jogo parece ter sido baseado nas histórias em quadrinhos de Sláine, exceto que sem os elementos cyberpunk. Odallus aparentemente é ambientado em uma Escócia medieval fantástica; Haggis (mais sobre esse nome mais tarde) é um ex-soldado que só deixou de lutar porque “as guerras não eram mais necessárias”. Ele tinha uma esposa, mas ela morreu em algum mento, e agora ele se dedica a criar o filho. Mas certa noite, sua vila, Glenfinnan (não apenas uma localização real na Escócia, mas também o local de nascimento de Connor McLeod do clã McLeod), é atacada pelos homens de Gael, que ainda por cima sequestram seu filho! Além disso, existem misteriosas lascas espalhadas pela terra que transformam seres humanos em abominações poderosas. Usando de sua espada ao melhor estilo Highlander, Connor – digo, Haggis vai cortar tudo em seu caminho (e quando digo tudo, quero dizer tudo MESMO, até paredes!) para salvar o filho.

O protagonista, Haggis.

O protagonista, Haggis.

Vai ser difícil analisar a história do jogo sem dar spoilers (afinal, ele acabou de sair!), mas tentarei. Um dos temas do jogo é que os velhos deuses abandonaram a humanidade, e agora os homens de Gael (liderados por alguém, ou alguma coisa) buscam ascender como novos deuses (acredito que não haja relação com as histórias de Jack Kirby!) usando o Odallus, um rubi dotado de imensos poderes místicos (aquelas lascas que mencionei no último parágrafo são dessa pedra). Durante o jogo, você vai encontrando pedras rúnicas que revelam mais sobre a origem dos inimigos e mostram que eles e o povo de Haggis (chamados Sedl’k) são mais parecidos do que se poderia imaginar, apesar das aparências (literalmente). Apesar disso, não há nenhuma ambiguidade moral no enredo, nem Haggis (ou o jogador) precisa ter quaisquer escrúpulos na hora de retalhar os inimigos: todo chefe enfrentado deixa claro que estão massacrando, pilhando e destruindo simplesmente por sede de poder e por se acharem superiores a meros mortais.

A reviravolta final envolvendo o filho de Haggis também consegue ser clichê e trapaceira ao mesmo tempo. Clichê, porque é o tipo de desenvolvimento que já apareceu em tantas histórias que antes mesmo de finalmente chegar à fase final, já dá para o jogador imaginar; trapaceira, porque absolutamente nada dentro da história deste jogo sequer levanta a possibilidade desse evento acontecer (pelo menos da forma como acontece). Acho que mais do que em Oniken, caberiam algumas ceninhas extras explorando o passado de soldado de Haggis antes desse final, até para aumentar o impacto dramático.

Certo, deixem-me falar do nome agora. Haggis é uma comida típica escocesa que é, grosso modo, a versão deles da boa e velha buchada de bode. Então, basicamente, nosso protagonista se chama Buchada. Estão percebendo a incongruência? Não é um jogo de comédia, ele leva a própria história a sério. Imaginem se em Rambo: programado para matar (que é um filme muito mais denso que as continuações, lembrem-se), o nome do protagonista fosse Zé Buchada em vez de John Rambo. Deu para imaginar como ficaria ridículo, não é?
Outro problema, diria que mais grave, é a pobreza do texto. Achei que o problema fosse só na versão em inglês do jogo, com vários erros gramaticais, mas a versão em português chega a ser pior; sem tantos erros, mas escrito de um jeito bastante amador. Bola fora da JoyMasher, e um tanto quanto surpreendente, já que o Oniken não tinha esses problemas (os diálogos eram simples, até simplórios, mas não a prosa não era tão pobre).

Apesar dessas críticas, os criadores estão de parabéns pelo jogo. Tudo nele é uma experiência mais profunda que em Oniken: os gráficos não só são melhores, como também são muito mais impactantes (o jogo consegue o feito raro de criar uma identidade visual própria mesmo ainda sendo possível perceber as inspirações dele), a trilha sonora é perfeitamente apropriada à aventura de Haggis, e a jogabilidade tem muito mais profundidade que um jogo de ação comum sem ser complexa demais. A JoyMasher também lançará um modo Veteran, e espero que em algum momento venham skins novas para o boneco (por enquanto, só quem investiu no Kickstarter do jogo tem essas skins) – tomara que uma delas seja do Zaku!