Ontem, dia 12 de março de 2015, sir Terry Pratchett, escritor e criador da saga Discworld, morreu de Alzheimer aos 66 anos de idade.

Já falamos aqui sobre a série mais famosa de Terry Pratchett, ou Pterry (o apelido carinhoso que os fãs lhe deram, lembram?), Discworld. Um dos últimos livros da série que ele escreveu foi Snuff, estrelado por Sam Vimes, o protagonista da subsérie da guarda de Ankh-Morpork. Snuff foi muito criticado por alguns fãs, e com razão, infelizmente; o livro realmente não está à altura do que se espera de um romance Discworld. Se eu tivesse de citar os dois maiores problemas com o livro, o primeiro é que a história é um pouco sem graça simplesmente porque Vimes não enfrenta nenhum desafio real e resolve toda a situação com uma tremenda facilidade (é como colocar um personagem de nível 20 em uma aventura de nível 1); o segundo, é que a situação em si (goblins, ao contrário das outras espécies do Disco como anões e trolls, não têm quaisquer direitos reconhecidos por lei – matar um goblin não é crime –, e um nobre inescrupuloso de Ankh-Morpork se aproveita disso para escravizá-los e forçá-los a trabalhar em uma plantação de tabaco) é séria demais para ser resolvida assim tão fácil (resumindo: a esposa de Vimes, lady Sybil, organiza um concerto por uma artista goblin, Lágrimas do Cogumelo; a música de Lágrimas é tão bela que emociona TODOS os nobres das nações presentes a ponto de eles IMEDIATAMENTE concederem direitos plenos a toda a espécie).

Discworld: a tartaruga A’Tuin

Usar situações aparentemente fantásticas como metáforas para questões do mundo real não é nada de novo em Discworld, especialmente nos livros da guarda de Ankh-Morpork; ora, o preconceito racial já foi o tema central de outros livros estrelados por Vimes e companhia, como Feet of Clay, Jingo e Thud!. Isso não é nem um pouco surpreendente: quem lê um pouco mais sobre o próprio Terry (e isso é algo que Neil Gaiman menciona até na introdução de uma coletânea de crônicas de Pratchett, A Slip of the Keyboard) sabe que, por trás daquela aparência de Papai Noel britânico, ele é um homem furioso com as injustiças deste mundo. Mas nos outros livros, quando os protagonistas conseguiam conquistar mudanças positivas, elas ocorriam gradualmente de um livro ao outro; em Snuff – talvez porque Pratchett soubesse que não teria mais tanto tempo de vida e que não poderia explorá-las a contento –, elas são imediatas e irreversíveis, ao contrário do que acontece no mundo real.

O mundo real deveria funcionar mais como a ficção; especificamente, como a ficção de Terry Pratchett. Vá com Deus, Pterry, e se algum demônio tiver o azar de ficar em seu caminho, faça-o comer morte plúmbea com sua escopeta de cano duplo.

Em sua conta no Twitter, estão as últimas mensagens deixadas para fechar este capítulo:

FINALMENTE, SIR TERRY, É HORA DE CAMINHARMOS JUNTOS.

Terry pegou no braço de Morte e seguiu-o pelas portas até o deserto negro sob a noite sem fim.