“Este é um conto de tragédia, este conto de Melniboné, a Ilha dos Dragões. É um conto de emoções monstruosas e ambições grandiosas. É um conto de feitiçarias e traições e ideais dignos, de agonias e prazeres temerosos, de amores ásperos e ódios suaves. Este é o conto de Elric de Melniboné. Grande parte dele o próprio Elric só recordaria em seus pesadelos.”

– Do Prólogo de Elric of Melniboné

Olá novamente, caro leitor! Gostaria de propor-lhe uma pergunta: se eu começar a falar de um personagem fictício que é um albino com uma espada amaldiçoada que devora as almas das vítimas, quem é a primeira pessoa que vem à sua mente? Imagino que seja Arthas Menethil, um dos protagonistas do jogo Warcraft 3 e de sua expansão, The Frozen Throne (sem falar do MMORPG World of Warcraft, no qual ele já é o vilão principal). Mas o personagem que tenho em mente é aquele que certamente serviu de inspiração para o Arthas: Elric de Melniboné, protagonista de várias histórias de fantasia escritas principalmente ao longo das décadas de 60 e 70 (com livros novos sendo lançados até os anos 2000) pelo inglês Michael Moorcock.

Elric de Melniboné

O par original “um albino e sua espada amaldiçoada”. Não aceitem substitutos!

Não que espadas amaldiçoadas ou protagonistas atormentados tenham surgido com ele. Na literatura nórdica medieval, por exemplo, tem-se a espada amaldiçoada Tyrfing, e o épico finlandês Kalevala conta a história de Kullervo, que arruína tanto a si próprio quanto a sua própria família em sua busca por vingança (e realmente, Kullervo serviu de inspiração tanto para Elric quanto para Túrin Turambar, um dos personagens de J. R. R. Tolkien). Mas Elric foi não apenas o primeiro personagem da literatura fantástica moderna a reunir esses dois elementos (Túrin foi criado bem antes, mas suas histórias só foram publicadas depois das de Elric), como também trouxe consigo vários outros aspectos originais para o gênero.

Elric foi concebido originalmente como o oposto dos heróis tradicionais da fantasia até então, muitos dos quais eram inspirados (ou “inspirados”) em Conan da Ciméria: ele não era um homem de ação e instintos, com humores intensos e pouco dado a filosofar, mas sim pensativo e introspectivo (às vezes até excessivamente), preocupado com questões de ética e moral (embora fosse capaz de grande crueldade com os inimigos e descaso com os aliados) e muito mais voltado à melancolia.

Não apenas isso: em contraste direto com grande parte da produção da literatura fantástica, que tem uma forte tendência a ser profundamente conservadora e nostálgica (há um clima de “os tempos de antigamente eram melhores”, o conflito principal tem como objetivo preservar ou restaurar o status quo, e por aí vai), as histórias de Elric têm um tema revolucionário, até mesmo anárquico. Seja por sua vontade ou apenas por sua presença, Elric provoca caos e mudanças por onde passa, e isso cresce até atingir proporções cósmicas na conclusão da saga em Stormbringer. Se for possível definir o tema central de Elric e suas histórias, parece ser o de “é preciso destruir o velho mundo para que se possa erguer um novo”.

Também os fracassos pessoais e os defeitos do protagonista têm uma importância maior aqui que nas histórias tradicionais de fantasia. Não é à toa que Elric adquire a alcunha de Assassino de Mulheres, ou que tão poucos de seus amigos e aliados apareçam em mais de uma história.

Moonglum, o amigo mais fiel de Elric.

Moonglum, o amigo mais fiel de Elric.

A ordem de publicação das histórias do albino é bastante anacrônica. Os primeiros contos, escritos ao longo da década de 60, foram coletados no romance Stormbringer (publicado em 1965), que é, cronologicamente, a última aventura do personagem. Depois disso, Moorcock escreveu novos contos, coletados em 1972 no romance Elric of Melniboné, que servem como uma introdução ao personagem e ao cenário. Moorcock continuou a escrever sobre o personagem; as outras histórias se situam entre Elric of Melniboné e Stormbringer, em termos cronológicos.

Falemos agora sobre o personagem em si. Elric é o mais novo imperador da ilha de Melniboné, uma nação que já comandou o maior império do mundo, mas que na época de Elric encontra-se em franco declínio perante os humanos dos chamados Jovens Reinos. Ah, sim, um detalhe muito importante: o povo de Melniboné não é humano. Eles são uma raça mais antiga, mais avançada, e muito mais poderosa em termos de feitiçaria. São também adoradores do Caos: sua divindade padroeira é Arioch, um dos Duques do Inferno, e seus outros deuses são todos Senhores do Caos. Eles não têm a concepção de moralidade ou ética que a raça humana; mesmo para Cymoril, talvez a melniboneana mais benevolente que é vista na série, o conceito de empatia (isto é, de se preocupar com o sofrimento do próximo) é estranho e incompreensível.

“Arioch! Arioch! Sangue e almas para meu senhor Arioch!” *

“Arioch! Arioch! Sangue e almas para meu senhor Arioch!” *

 *Bom, na verdade, este é Arioch como descrito nas histórias de Corum Jhaelen Irsei, outro personagem do Moorcock.

Elric é uma exceção a isso. Fraco desde criança devido ao seu albinismo (que, com meus parcos conhecimentos médicos, não se parece em nada com o albinismo da vida real, exceto na aparência), ele é dependente de poções especiais até para poder se levantar da cama, o que o levou a procurar sua diversão em meio aos livros, e isso o levou à filosofia e a desenvolver uma moralidade mais próxima à humana. Devido a isso, ele sente desprezo pela maior parte de seus conterrâneos e pela cultura melniboneana obcecada com o prazer e a satisfação dos sentidos (não que Elric seja exatamente uma boa pessoa; ele pode não tomar parte no sadismo gratuito de Melniboné, mas quando quer, pode ser não só implacável como também cruel). Sua atitude é percebida pela corte, que vê isso como um sinal de fraqueza, especialmente Yrkoon, primo de Elric e irmão de Cymoril, que por sua vez é a amada de Elric. O conflito entre Elric e Yrkoon é o cerne da história de Elric of Melniboné e do primeiro conto de The Stealer of Souls.

Outro elemento importante nessas histórias – quase tanto quanto o protagonista – é a espada Stormbringer (nome traduzido pela Abril Jovem como “Tempestade”), cuja lâmina é completamente negra e tem runas entalhadas, convocada de outra dimensão pelo albino (que, como todo imperador de Melniboné, é um feiticeiro, e Elric é um dos feiticeiros mais poderosos do mundo). A espada concede força e vigor ao portador (o que significa que Elric não depende mais de suas poções, ao preço de se tornar dependente de Stormbringer), possui vontade própria (o que a permite auxiliar o espadachim em combate) e devora as almas de quem mata (concedendo ainda mais força ao portador – há ocasiões em que Elric se torna um verdadeiro exército de um homem só graças à lâmina). Revelar mais do que isso seria estragar parte da história, mas basta dizer que não é à toa que Stormbringer é um dos elementos mais marcantes dos livros.

Elric-Stormbringer

“Uma espada +5 que aumenta minha Força e minha Constituição e também me deixa mais poderoso quanto mais inimigos eu mato? Claro que eu quero! O que poderia dar errado?”

Aliás, toda a saga de Elric foi extremamente marcante. Aqui no Brasil ele é praticamente desconhecido, mas na produção cultural anglófona o albino atormentado foi muito influente. Não é exagero dizer que toda uma geração de anti-heróis na literatura e nos videogames (não só o supracitado Arthas, mas também, por exemplo, Kain, da série Legacy of Kain) foi inspirada, direta ou indiretamente, nele; e Stormbringer foi provavelmente o grande modelo do qual toda lâmina devoradora de almas na ficção moderna surgiu. Veja o Dungeons & Dragons, por exemplo, o primeiro RPG de todos: as primeiras edições estavam cheias de referências à série de Moorcock (por exemplo, o eixo de alinhamento Caos-Ordem foi inspirado no conflito entre os Senhores da Ordem e os Senhores do Caos que é a base do enredo em Stormbringer e é um tema recorrente nos livros do Moorcock em geral). E várias bandas de rock e heavy metal (Blue Öyster Cult, Hawkwind, Domine, Blind Guardian, etc.) têm letras (ou até álbuns inteiros) baseados diretamente nas histórias do Moorcock, especialmente as protagonizadas por Elric (que é a criação de maior sucesso do escritor).

Nenhum dos livros de Elric foi traduzido aqui no Brasil (embora, salvo engano, tenham sido traduzidos em Portugal), exceto por Stormbringer (traduzido como A Espada Diabólica), mas as adaptações para revistas em quadrinhos, sim. Tanto os livros quanto as revistas podem ser encontrados em sebos, com algum esforço. Recomendo a leitura: a prosa de Moorcock é dinâmica e cativante, Elric é um protagonista muito interessante, e as histórias são excelentes para quem gosta de histórias de fantasia com bastante ação e aventura (o gênero conhecido como “espada e magia”, ou “sword and sorcery” para os anglófonos).