“Conan! O que há de melhor na vida?”

“Esmagar seus inimigos! Vê-los fugir diante de si! E ouvir os lamentos de suas mulheres!”

Quem não se lembra desse diálogo no filme Conan o Bárbaro? Aliás, quem não se lembra desse filme? Com uma trilha sonora excelente e cenas antológicas como Conan rasgando com os dentes a garganta de um abutre que queria devorá-lo, o filme não apenas é um clássico da Sessão da Tarde, mas também é um ótimo filme.

Conan Rei

Antigamente, este era o objetivo de todo Guerreiro de Dungeons & Dragons: conquistar seu próprio reino.

É uma pena que o Conan do filme não tenha praticamente nada a ver com o Conan das histórias escritas por Robert E. Howard.

Melhor deixar algo bem claro desde o início: isso não significa que eu ache o filme ruim, pelo contrário (afinal, acabei de chamá-lo de “um ótimo filme”). E também gosto bastante do Solomon Kane (para pegar de exemplo outro filme baseado em uma criação do Howard), que também não foi particularmente fiel ao personagem. Mas nenhum dos dois foi uma boa adaptação.

Tendo dito isso, meu objetivo aqui não é malhar o filme do Conan, mas sim tentar reapresentar o personagem ao grande público. E para ser justo, grande parte da apresentação errônea do personagem (“errônea” apenas por ser diferente da apresentação original; o arquétipo do bárbaro burro e brutamontes, “Torgaf esmaga homenzinhos!”, pode ser bem divertido, às vezes) também vem das revistas em quadrinhos e de histórias escritas por autores diferentes, não apenas do filme com o Schwarzenegger.

 

Mas só para deixar bem claro: o Conan do Howard não se parecia em nada com isso.

Mas só para deixar bem claro: o Conan do Howard não se parecia em nada com isso.

Sem mais delongas, vou apresentar alguns dos conceitos equivocados formados sobre o personagem e então desconstruí-los. Antes de mais nada, vamos falar sobre a questão estética:

1) Conan usa tanguinhas de couro e fica de peito nu. Não, não, não, não! Conan é um guerreiro extremamente hábil, ele não é tolo o bastante de lutar sem proteção se tiver alguma escolha. Nas histórias de Howard, ele sempre usa as melhores armaduras e escudos que estejam disponíveis, e quando não o faz, geralmente é devido às circunstâncias (o clima não é apropriado para armaduras de metal, ele está se infiltrando em algum lugar e uma armadura causaria muito barulho, ele acabou de ser preso e por isso está desarmado, etc.).

2) Conan é burro e ignorante. Não, ele não é. Realmente, ele não é nem um pouco erudito, e muitas vezes precisa que alguém lhe explique alguma questão cultural, social ou política, mas isso é por ele ser um estrangeiro (nenhuma das histórias de Howard se passa na terra natal de Conan, a Ciméria) e por viver como um ladrão, pirata ou mercenário (isto é, alguém à margem da sociedade), não por ser burro. Na verdade, ele é bastante astuto e demonstra grande engenhosidade, e também vai adquirindo conhecimentos de táticas militares e estratégias políticas ao longo de sua carreira. Ora, como rei ele até mesmo aprecia a importância das artes e demonstra sabedoria política!

3) Conan é forte como um touro e lerdo como uma lesma. Não, ele não é. Quer dizer, ele é muito forte, realmente, mas não é um daqueles fortões lerdos que tanto se vê em filmes, quadrinhos e afins. Não, Conan tinha não apenas reflexos velozes, como também graça e agilidade. Lembrem-se que Conan frequentemente agia como um ladrão, e portanto agilidade e furtividade eram habilidades fundamentais para seu estilo de vida.

4) Conan é muito religioso e exclama “Por Crom!” o tempo todo. Tampouco. Nesse quesito, o filme foi fiel ao texto de Howard: Conan tem uma atitude indiferente para com os deuses (embora não seja avesso a aceitar auxílio sobrenatural deles ou de seus servos, ao menos não quando mais velho), e os cimérios acreditam que Crom não é um deus piedoso ou generoso a quem se deva pedir ajuda.

Conan ora para Crom

E essa cena foi MUITO maneira. “A coragem o agrada, Crom, então conceda-me um pedido. Conceda-me vingança! E se não me atender, então PRO INFERNO com você!”

Bom, acho que com isso já vimos os principais equívocos ao se pensar no personagem Conan. Que tal agora vermos quem ele É, em vez de quem ele não é?

Conan, durante a maior parte de sua vida como um personagem fictício, é alguém que tenta viver a vida ao máximo: seus roubos e serviços mercenários servem não para deixá-lo rico, mas para que ele possa passar a semana toda comendo do melhor, bebendo do melhor e desfrutando as mais belas mulheres antes de gastar tudo e voltar às aventuras – porque sem elas, sua vida seria muito entediante! É apenas quando ele começa a envelhecer que passa a pensar em construir algo mais duradouro, o que no final o leva a se tornar rei da Aquilônia (pode-se argumentar, no entanto, que a única história escrita por Howard que mostra Conan como rei era, originalmente, uma história sobre o rei Kull da Valúsia, e que portanto esse Conan mais preocupado com seu legado não era uma representação fiel do personagem como ele viria a ser).

Assim como seu porte físico é imenso, também suas emoções são intensas. Quando está alegre, ele ri da mera ideia da morte; quando fica triste, sofre de melancolia intensa; e quando sente raiva, odeia com toda a força de seu ser. Muitas vezes isso o leva a tratar com descaso os sofrimentos dos outros; “por que perder tempo se lamuriando quando ainda se está vivo”, é o que ele pensa. Mesmo quando Bêlit (uma das poucas mulheres que Conan realmente amou) morreu, ele sentiu sua perda profundamente, mas depois voltou a viver como sempre.

Conan não se importa com convenções sociais, considerando a força pessoal como superior às leis de qualquer sociedade. Ele é impiedoso – se as pessoas não querem ser roubadas, deveriam proteger seus pertences melhor; e quem está disposto a matá-lo deve estar disposto a morrer também –, mas não é um assassino sanguinolento e nem é desprovido de compaixão.

Creio que isso já baste para apresentar o personagem. E quanto às histórias em si? Bom, para ser sincero, nem sempre a prosa do Robert E. Howard me agrada (há ocasiões em que ela é excessivamente verborrágica e grandiloquente; pessoalmente, acho que sua melhor produção foi nas histórias de Solomon Kane). Além disso, às vezes o autor readaptou alguns de seus outros contos em histórias do Conan, e nem sempre essa adaptação conciliou bem a história original com o personagem Conan. Apesar disso, Howard é ótimo em descrever cenas de ação: elas são violentas e velozes, mas o leitor não se perde nelas. Aliás, as tramas das histórias de Conan são recheadas de ação e aventura (além de serem um prato cheio de inspirações para quem joga D&D e afins)!

Em resumo, recomendo a todo fã de fantasia heroica que leia as histórias de Conan escritas por Howard (sugiro evitar as escritas por outros autores, tanto por questões de qualidade quanto por fidelidade à concepção original do personagem). Felizmente, hoje em dia elas são facilmente acessíveis em português.

Conan: o Bárbaro

Mas apesar de não apresentar realmente o Conan de Howard, esse filme foi muito bom. “Ele é Conan. Cimério. Ele não chora, então eu choro por ele.”