Jogos de plataforma – nos quais, como o nome já diz, o boneco tem que pular de uma plataforma a outra até chegar ao final da fase – fazem parte de um dos gêneros mais antigos na história dos vídeo games. Deles, os mais famosos provavelmente são os da série Super Mario Bros., mas os exemplos (e variações da fórmula básica) são quase incontáveis.

Aritana e a Pena da Harpia é um jogo de plataforma para o PC lançado em 2014 pela empresa brasileira Duaik. Inspirada em lendas dos índios brasileiros, a história do jogo é que o cacique Tabata é atormentado por espíritos da floresta e fica doente; para curá-lo, o cacique Raoni precisa de uma pena da harpia do título (não o monstro da mitologia grega, mas sim um gavião-real), que vive no topo da montanha, e o índio Aritana parte em busca da pena. Além de enfrentar espíritos hostis, Aritana precisará desbravar florestas, cavernas e outros ambientes. É uma trama simples, mas bem contada por meio de cenas silenciosas curtas na introdução e entre uma fase e outra.

Aritana é voltado para os desafios de saltos

Existem momentos de ação, inimigos a serem derrotados e tudo o mais, mas, exceto pelos chefes das fases (ou melhor, O chefe, mas enfrentado diversas vezes), essa é uma parte relativamente pequena do jogo; não é como Strider ou os jogos da série Castlevania, nos quais matar os bichos na tela é tão importante quanto (ou até mais que) saltar de uma plataforma à outra. Na maior parte das vezes, os ataques serão usados apenas para desobstruir o caminho ou usar os monstros de trampolim para alcançar plataformas distantes. Na verdade, em termos de jogabilidade (e até gráficos), Aritana lembra muito os jogos 2D da série Rayman, de PS1 e Wii: não basta ter reflexos afiados na hora de fazer os pulos, é preciso observar bem o cenário e o posicionamento dos inimigos para quicar neles (e em determinados objetos) e alcançar a próxima plataforma.

O jogo também faz uso de um sistema de posturas que podem ser trocadas livremente (essencial para resolver os jumping puzzles): na Postura de Força, Aritana consegue atacar em várias direções e também enxergar os pontos fracos dos inimigos; na Postura de Agilidade, ele não pode atacar, mas pula mais alto e pode cair de qualquer altura sem se machucar. Além disso, ao longo do jogo ele adquire novas habilidades (como uma canção que revela áreas secretas, por exemplo) que só podem ser usadas em uma postura ou outra.

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Bom, essas são as mecânicas básicas do jogo. Além delas, tem outras coisinhas mais, mas são coisas fáceis de se entender só jogando, não precisam ser explicadas aqui. Agora, vamos ao que interessa: o jogo é bom?

Muito! Uma coisa importantíssima em vídeo games é o level design; isto é, o posicionamento dos inimigos, plataformas, obstáculos, bônus, etc. Um jogo no qual você só tem que ir de um lado ao outro em uma linha reta seria bem chato, não é verdade? Por isso que criadores apimentam isso com inimigos, plataformas de alturas diferentes, armadilhas que causam dano, armadilhas que matam instantaneamente, etc. No caso de Aritana, o design das fases é primoroso: os desafios seguem em uma linha progressiva, então o jogador tem que fazer uso constante de habilidades que já adquiriu, mas sempre com algo novo para que não fiquem repetitivos. Além disso, e como disse antes, é um jogo que põe à prova não só os reflexos, mas também o raciocínio; os puzzles não chegam ser complicados como em Braid ou afins, mas são mais complexos do que apenas puxar, empurrar, girar e empilhar caixas sem fim (não é, Legacy of Kain: Soul Reaver?).

É um jogo difícil. Vidas extras e checkpoints são abundantes, os continues são infinitos, e quando você cai em um buraco, você só perde um pouco de energia e dá respawn imediato nas imediações (a menos que você não tenha mais energia pra perder, aí você morre e volta ao último checkpoint); mas, mesmo assim, é um jogo difícil. Mas essa dificuldade está em um nível equilibrado: quando você morre, você nunca amaldiçoa o sem-mãe que colocou um morcego ou um pássaro para aparecer do nada e te derrubar no buraco (ouviram, programadores de Castlevania e Ninja Gaiden?), você pensa “Putz, fiz besteira!”. É frustrante, mas é uma frustração boa; em vez de xingar o jogo, você só fica com mais vontade de continuar a jogar até passar de fase.

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Os gráficos são bem coloridos e cartunescos

Os inimigos têm um visual bem simples, mas por um lado isso é bom – facilita ao jogador descobrir os pontos fracos deles –, e os cenários são muito bonitos, cheios de detalhes. Além disso, a animação dos bonecos é bem fluida, especialmente a do próprio Aritana e a do Mapinguari, o chefe das fases. A música é simples, mas boa, além de criar uma atmosfera apropriada ao jogo. No geral, em termos de apresentação visual e sonora, o jogo é bem agradável a olhos e ouvidos.

Infelizmente, essa qualidade toda tem um pequeno preço: em máquinas mais “carroças”, tipo o meu computador, o jogo às vezes fica um pouco mais lento. Só um pouco, e só às vezes, mas atrapalha. Por outro lado, como eu disse, meu PC é uma carroça; conferindo vídeos no YouTube, já pude ver que o jogo normalmente roda sem problema algum.

Na verdade, a única crítica séria que faço a Aritana é quanto aos controles, questão fundamental para qualquer jogo. No início, os comandos estavam configurados de um jeito esquisito, meio complicado de jogar, e não dava para mudar essas configurações. Felizmente, o pessoal da Duaik lançou um patch que resolveu esse problema (agora dá para configurar os comandos do jeito que quiser no teclado ou em um controle oficial do Xbox) e ainda acrescentou várias coisas ótimas (por exemplo, alguns comandos mudam automaticamente a Postura do Aritana, o que facilita MUITO diversos trechos). Só tem uma coisa que ainda dava para melhorar:

No geral, recomendo enfaticamente para fãs de jogos de plataforma! Notas são sempre meio arbitrárias, mas dou nota 9.0 ao jogo sem hesitar. Quem estiver interessado, é só baixar a demo no Steam ou no site oficial (http://duaik.com/aritana/) e experimentar; se gostar dá para comprar a versão completa nas mesmas páginas.

Não percam a parte 2 desta matéria, uma entrevista com Pérsis Duaik, um dos criadores do jogo!

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